Difference between revisions of "A Economia Política da Produção entre Pares"

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Em termos mais gerais, o capitalismo netárquico é um rótulo do capital que abraça a revolução do ''peer to peer'', isto é, todas essas forças ideológicas para as quais o capitalismo é o horizonte definitivo da possibilidade humana, é a força por detrás da imanência do ''peer to peer''. Em oposição, apesar de ligado a ele numa aliança temporária, estão as forças do ''Common''-ismo, aquelas que colocam a sua fé na transcendência do ''peer to peer'', numa reforma da economia política que vá para além do domínio do mercado.
 
Em termos mais gerais, o capitalismo netárquico é um rótulo do capital que abraça a revolução do ''peer to peer'', isto é, todas essas forças ideológicas para as quais o capitalismo é o horizonte definitivo da possibilidade humana, é a força por detrás da imanência do ''peer to peer''. Em oposição, apesar de ligado a ele numa aliança temporária, estão as forças do ''Common''-ismo, aquelas que colocam a sua fé na transcendência do ''peer to peer'', numa reforma da economia política que vá para além do domínio do mercado.
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'''Aspectos Transcendentes do P2P'''
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De facto, a nossa análise dos aspectos imanentes do ''peer to peer'', referindo-se ao modo como tanto depende como resulta do capitalismo, não esgota o assunto. O P2P possui importantes aspectos transcendentes que vão para além das restrições impostas pela economia com fins lucrativos:
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  - A produção entre pares possibilita efectivamente a cooperação livre entre produtores que têm acesso aos seus próprios meios de produção, sendo que o valor de uso resultante dos projectos suplanta o das alternativas comerciais.
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Em termos históricos, ainda que forças com uma produtividade superior se possam encontrar temporariamente implantadas no antigo sistema produtivo, elas conduzem em última análise a graves sublevações e a reestruturações da economia política. O surgimento de modos capitalistas no interior do sistema feudal é um exemplo pertinente. Isto é particularmente importante dado que sectores dominantes da economia com fins lucrativos estão deliberadamente a retardar o crescimento produtivo (na música; através das patentes) e a tentar ilegalizar as práticas de produção e partilha P2P.
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  - A autoridade entre pares transcende tanto a autoridade do mercado como a do estado.
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  - As novas formas de propriedade comum universal trancendem as limitações dos modelos de propriedade pública e privada e estão a reconstituir um sector dinâmico do ''Commons''.
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Numa altura em que o próprio triunfo do modo capitalista de produção coloca em risco a biosfera e provoca um número cada vez maior de danos psíquicos (e físicos) à população, o surgimento de uma alternativa como esta é particularmente apelativo, correspondendo às novas necessidades culturais de grande parte da população. O surgimento e crescimento do P2P é, por isso, acompanhado, por uma nova ética do trabalho (a Ética Hacker de Pekka Himanen), por novas práticas culturais como círculos de pares na pesquisa espiritual (a análise cooperativa de John Heron) mas, sobretudo, por um novo movimento social e político  que tem como desígnio promover a sua expansão. Este movimento P2P ainda emergente (e que inclui o movimento do ''software'' livre e ''open-source'', o movimento pelo acesso livre, o movimento pela cultura livre, entre outros) repete os métodos de organização e os objectivos do movimento por uma globalização alternativa, estando rapidamente a converter-se no equivalente do movimento socialista na era industrial. Assume-se como alternativa permanente ao status quo e expressão do crescimento de uma nova força social: os trabalhadores do conhecimento.
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Com efeito, a intenção da teoria ''peer to peer'' é fornecer uma sustentação teórica às práticas transformadoras destes movimentos. Consiste numa tentativa de criar uma compreensão radical de que um novo tipo de sociedade, baseada na centralidade do ''Commons'' e inserida num mercado e estado reformados, está ao alcance das possibilidades humanas. Uma teoria como esta teria que explicar correctamente não só a dinâmica dos processos entre pares, mas também o seu ajustamento a outras dinâmicas intersubjectivas. Por exemplo, como é que o P2P modifica os modos de reciprocidade, de mercado e de hierarquia? Em que transformações ontológicas, epistemológicas e axiológicas esta evolução se apoia? E o que poderá ser um possível ethos P2P positivo? Um elemento crucial desta teoria ''peer to peer'' seria o desenvolvimento de uma táctica e uma estratégia para tal prática transformadora. A questão essencial está em saber se o ''peer to peer'' pode ser alargado para além da esfera imaterial em que surgiu.
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'''A expansão do modo de produção P2P'''
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Dada a dependência do P2P em relação ao modo de mercado existente, quais são as suas possibilidades de crescer para além da esfera actual de bens imateriais não-rivais?
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Eis algumas teses em torno deste potencial:
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  - O P2P pode surgir não somente na esfera imaterial da produção intelectual e de ''software'' mas onde quer que haja acesso a tecnologia distribuída, ciclos computacionais disponíveis, telecomunicações distribuídas e qualquer tipo de ''meshwork'' ou comunicador viral.
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  - O P2P pode surgir onde quer que estejam disponíveis outras formas de capital fixo distribuído, como é o caso do ''carpooling'' - sistema de boleias com custos partilhados e rotatividade do condutor -, que é o segundo método de transporte mais utilizado nos Estados Unidos.
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  - O P2P pode surgir onde quer que o processo de ''design'' possa ser separado do processo de produção física. Mecanismos capitalistas de grandes dimensões podem coexistir com processos P2P, dos quais dependem em termos de ''design'' e concepção.
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  - O P2P pode surgir onde quer que o capital financeiro possa ser distribuído. Iniciativas como o banco ZOPA apontam nessa direcção. A aquisição e o usufruto cooperativos de grandes quantidades de mercadorias capitalistas constituem uma possibilidade. O suporte e financiamento estatal do desenvolvimento de ''software open-source'' é outro exemplo.
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  - O P2P pode ser alargado e apoiado mediante a introdução de um rendimento básico universal.
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Este último, que estabelece um rendimento independente do trabalho assalariado, tem o potencial de apoiar um maior desenvolvimento do valor de uso gerado pelo P2P. Por via do ethos da 'actividade para todos' (em vez do emprego para todos) do P2P, o rendimento básico recebe um novo e poderoso argumento: não apenas como sendo eficaz em termos de pobreza e desemprego mas também como produtor de um novo e importante valor de uso para a comunidade humana.
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Contudo, uma vez que é díficil vislumbrar como é que a produção e a troca de valor de uso poderão vir a tornar-se na única forma de produção, será mais realista entender o ''peer to peer'' como parte de um processo de mudança. Num cenário assim, o ''peer to peer'' iria não só coexitir com mas também transformar profundamente outros modos intersubjectivos.
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Uma economia política assente no Commons estaria centrada em torno do ''peer to peer'' mas iria coexistir com:
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  - Uma potente e revigorada esfera de reciprocidade (economia da dádiva) centrada em redor da introdução de moedas complementares que valorizam o tempo disponibilizado na prestação de serviços – é o caso dos  'bancos de tempo'.
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  - Uma esfera renovada para a troca mercantil, o tipo de 'capitalismo natural' descrito por Paul Hawken, David Korten e Hazel Henderson, em que os custos da reprodução natural e social deixam de ser exteriorizados e em que o imperativo de crescimento é prescindido em favor de uma economia equilibrada – ''throughput'' - como descrita por Herman Daly.
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  - Um estado renovado que actue dentro de um contexto de participação de muitos actores – ''multistakeholdership'' - e que deixe de estar submetido a interesses empresariais, passando a funcionar como um árbitro imparcial entre os ''Commons'', o mercado e a economia da dádiva.
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Este objectivo poderia ser a inspiração para uma poderosa alternativa ao domínio neoliberal e criar um caleidoscópio de movimentos '''Common''-istas' amplamente inspirados por estas metas.

Revision as of 23:47, 17 July 2006