Difference between revisions of "A Economia Política da Produção entre Pares"

From P2P Foundation
Jump to navigation Jump to search
Line 9: Line 9:
  
  
== ''Peer to Peer'' ==
+
'''''Peer to Peer'''''
  
  
 
O P2P não se refere a todos os comportamentos ou processos que ocorrem em redes distribuídas. Especificamente, o P2P designa todos os processos que visam aumentar a participação generalizada de participantes equipotenciais. Iremos definir estes termos quando examinarmos as características dos processos P2P, mas por agora apresentamos as características mais importantes e gerais.
 
O P2P não se refere a todos os comportamentos ou processos que ocorrem em redes distribuídas. Especificamente, o P2P designa todos os processos que visam aumentar a participação generalizada de participantes equipotenciais. Iremos definir estes termos quando examinarmos as características dos processos P2P, mas por agora apresentamos as características mais importantes e gerais.
 +
  
 
'''Os Processos P2P:'''  
 
'''Os Processos P2P:'''  
 +
  
 
   - produzem valor de uso através da cooperação livre entre produtores que têm acesso a capital distribuído: este é o modo de produção P2P, um 'terceiro modo de produção', diferente da produção com fins lucrativos e da produção pública efectuada por companhias detidas pelo estado. O seu produto não reside num valor de troca destinado ao mercado mas num valor de uso dirigido a uma comunidade de utilizadores.
 
   - produzem valor de uso através da cooperação livre entre produtores que têm acesso a capital distribuído: este é o modo de produção P2P, um 'terceiro modo de produção', diferente da produção com fins lucrativos e da produção pública efectuada por companhias detidas pelo estado. O seu produto não reside num valor de troca destinado ao mercado mas num valor de uso dirigido a uma comunidade de utilizadores.
 
   - são administrados pela comunidade de produtores e não por mecanismos de alocação do mercado ou por uma hierarquia empresarial. Este é o modo de autoridade P2P ou 'terceiro modo de autoridade'.
 
   - são administrados pela comunidade de produtores e não por mecanismos de alocação do mercado ou por uma hierarquia empresarial. Este é o modo de autoridade P2P ou 'terceiro modo de autoridade'.
 
   - disponibilizam livremente o valor de uso segundo um princípio de universalidade, através de novos regimes de propriedade comum. Este é o seu 'modo de propriedade distribuída ou entre pares', diferente da propriedade privada ou da propriedade pública (do estado).  
 
   - disponibilizam livremente o valor de uso segundo um princípio de universalidade, através de novos regimes de propriedade comum. Este é o seu 'modo de propriedade distribuída ou entre pares', diferente da propriedade privada ou da propriedade pública (do estado).  
 +
  
 
'''A Infra-estrutura do P2P'''
 
'''A Infra-estrutura do P2P'''
 +
  
  
Line 31: Line 35:
  
 
O quinto requisito é cultural. A difusão da intelectualidade de massa (isto é, a distribuição da inteligência humana) e as transformações associadas nas formas de sentir e ser (ontologia), formas de conhecer (epistemologia) e nas constelações de valores têm contribuído para a criação do tipo de individualismo cooperativo necessário para manter um ''ethos'' que torne possível os projectos P2P.
 
O quinto requisito é cultural. A difusão da intelectualidade de massa (isto é, a distribuição da inteligência humana) e as transformações associadas nas formas de sentir e ser (ontologia), formas de conhecer (epistemologia) e nas constelações de valores têm contribuído para a criação do tipo de individualismo cooperativo necessário para manter um ''ethos'' que torne possível os projectos P2P.
 +
  
 
'''As Características do P2P'''
 
'''As Características do P2P'''
 +
  
 
Os processos P2P ocorrem em redes distribuídas. As redes distribuídas são redes em que os agentes autónomos podem determinar livremente o seu comportamento e ligações sem o intermédio obrigatório de centros. Tal como Alexander Galloway insiste no seu livro sobre o poder protocolar, as redes distribuídas não são o mesmo que redes descentralizadas, nas quais os centros são obrigatórios. O P2P baseia-se num poder distribuído e no acesso distribuído aos recursos. Numa rede descentralizada como a do sistema de aeroportos dos Estados Unidos, os aviões têm que passar por determinados centros; contudo, em sistemas distribuídos como a internet ou os sistemas de auto-estradas, os centros podem existir mas não são obrigatórios e os agentes podem sempre evitá-los.   
 
Os processos P2P ocorrem em redes distribuídas. As redes distribuídas são redes em que os agentes autónomos podem determinar livremente o seu comportamento e ligações sem o intermédio obrigatório de centros. Tal como Alexander Galloway insiste no seu livro sobre o poder protocolar, as redes distribuídas não são o mesmo que redes descentralizadas, nas quais os centros são obrigatórios. O P2P baseia-se num poder distribuído e no acesso distribuído aos recursos. Numa rede descentralizada como a do sistema de aeroportos dos Estados Unidos, os aviões têm que passar por determinados centros; contudo, em sistemas distribuídos como a internet ou os sistemas de auto-estradas, os centros podem existir mas não são obrigatórios e os agentes podem sempre evitá-los.   
Line 48: Line 54:
 
O quadro conceptual da nossa comparação é a teoria dos Modelos Relacionais do antropólogo Alan Page Fiske, abordada na sua obra principal ''The Structure of Social Life''. O facto de que os modos de produção estão inseridos em relações inter-subjectivas – isto é, caracterizadas pelas suas combinações relacionais particulares – oferece o quadro conceptual necessário para distinguir o P2P. De acordo com Fiske, existem quatro tipos básicos de dinâmicas inter-subjectivas, válidas ao longo do tempo e do espaço, nas suas próprias palavras:
 
O quadro conceptual da nossa comparação é a teoria dos Modelos Relacionais do antropólogo Alan Page Fiske, abordada na sua obra principal ''The Structure of Social Life''. O facto de que os modos de produção estão inseridos em relações inter-subjectivas – isto é, caracterizadas pelas suas combinações relacionais particulares – oferece o quadro conceptual necessário para distinguir o P2P. De acordo com Fiske, existem quatro tipos básicos de dinâmicas inter-subjectivas, válidas ao longo do tempo e do espaço, nas suas próprias palavras:
  
 
+
 
  
 
+
 
  
 
Cada tipo de sociedade ou civilização é uma combinação destes quatro modos, mas pode-se argumentar plausivelmente que um modo domina sempre, afectando os outros modos subservientes. Em termos históricos, o primeiro modo dominante foi a reciprocidade por parentesco ou linhagem, as chamadas economias da dádiva tribais. O elemento essencial de ligação era a 'pertença'. As dádivas geravam obrigações e relações para além dos parentes mais próximas, criando um campo mais vasto de troca. As sociedades agrárias ou feudais eram dominadas pela estratificação por autoridade, isto é, baseavam-se na fidelidade. Finalmente, é um facto óbvio de que a economia capitalista é dominada pela fixação de preços pelo mercado.  
 
Cada tipo de sociedade ou civilização é uma combinação destes quatro modos, mas pode-se argumentar plausivelmente que um modo domina sempre, afectando os outros modos subservientes. Em termos históricos, o primeiro modo dominante foi a reciprocidade por parentesco ou linhagem, as chamadas economias da dádiva tribais. O elemento essencial de ligação era a 'pertença'. As dádivas geravam obrigações e relações para além dos parentes mais próximas, criando um campo mais vasto de troca. As sociedades agrárias ou feudais eram dominadas pela estratificação por autoridade, isto é, baseavam-se na fidelidade. Finalmente, é um facto óbvio de que a economia capitalista é dominada pela fixação de preços pelo mercado.  
 +
  
 
'''O P2P e a Economia da Dádiva'''  
 
'''O P2P e a Economia da Dádiva'''  
 +
  
  
  
 
Isto não quer dizer que estas formas não sejam complementares, dado que tanto a correspondência por igualdade como a partilha comunitária derivam do mesmo espírito da dádiva. A produção entre pares pode ocorrer mais facilmente na esfera dos bens imateriais onde o capital despendido – ''input'' -  consiste em tempo livre e no excesso disponível de recursos informáticos. A correspondência por igualdade, os esquemas assentes na reciprocidade e a produção cooperativa são necessárias na esfera material onde o custo do capital intervem. Por agora, a produção entre pares não oferece qualquer solução à subsistência material dos seus participantes. Por isso, muitas pessoas inspiradas pelo ''ethos'' igualitário irão recorrer à produção cooperativa, à economia social e outros mecanismos dos quais poderão obter um rendimento, mantendo-se ao mesmo tempo fiéis aos seus princípios. Neste sentido, estes mecanismos são complementares.  
 
Isto não quer dizer que estas formas não sejam complementares, dado que tanto a correspondência por igualdade como a partilha comunitária derivam do mesmo espírito da dádiva. A produção entre pares pode ocorrer mais facilmente na esfera dos bens imateriais onde o capital despendido – ''input'' -  consiste em tempo livre e no excesso disponível de recursos informáticos. A correspondência por igualdade, os esquemas assentes na reciprocidade e a produção cooperativa são necessárias na esfera material onde o custo do capital intervem. Por agora, a produção entre pares não oferece qualquer solução à subsistência material dos seus participantes. Por isso, muitas pessoas inspiradas pelo ''ethos'' igualitário irão recorrer à produção cooperativa, à economia social e outros mecanismos dos quais poderão obter um rendimento, mantendo-se ao mesmo tempo fiéis aos seus princípios. Neste sentido, estes mecanismos são complementares.  
 +
  
 
'''O P2P e a Hierarquia'''
 
'''O P2P e a Hierarquia'''
 +
  
 
O P2P não se caracteriza pela ausência de uma hierarquia ou estrutura, mas por hierarquias e estruturas flexíveis baseadas no mérito que são empregues para fomentar a participação. A liderança é também 'distribuída'. Na maioria dos casos, os projectos P2P são liderados por um núcleo de fundadores que incorporam os objectivos iniciais do projecto e coordenam o vasto número de indivíduos e micro-equipas que desenvolvem ''patches'' – código de correção do ''software''. A sua autoridade e liderança advém do contributo que dão para a concretização do projecto e da sua participação contínua. Se bem que por vezes se afirme que os projectos entre pares consistem em 'ditaduras benevolentes', não devemos esquecer que, uma vez que a cooperação é inteiramente voluntária, a existência duradoura destes projectos baseia-se no consentimento da comunidade de produtores e no ''forking'' (isto é, é sempre possível a criação de um novo projecto independente).  
 
O P2P não se caracteriza pela ausência de uma hierarquia ou estrutura, mas por hierarquias e estruturas flexíveis baseadas no mérito que são empregues para fomentar a participação. A liderança é também 'distribuída'. Na maioria dos casos, os projectos P2P são liderados por um núcleo de fundadores que incorporam os objectivos iniciais do projecto e coordenam o vasto número de indivíduos e micro-equipas que desenvolvem ''patches'' – código de correção do ''software''. A sua autoridade e liderança advém do contributo que dão para a concretização do projecto e da sua participação contínua. Se bem que por vezes se afirme que os projectos entre pares consistem em 'ditaduras benevolentes', não devemos esquecer que, uma vez que a cooperação é inteiramente voluntária, a existência duradoura destes projectos baseia-se no consentimento da comunidade de produtores e no ''forking'' (isto é, é sempre possível a criação de um novo projecto independente).  
Line 79: Line 89:
 
   3. A hierarquia concede um certo grau de cooperação e autonomia na esfera política noutras esferas;  
 
   3. A hierarquia concede um certo grau de cooperação e autonomia na esfera política noutras esferas;  
 
   4. A única função da hierarquia reside no seu surgimento espontâneo no contexto do início e desenvolvimento contínuo da autonomia-em-cooperação em todas as esferas da actividade humana.ii  
 
   4. A única função da hierarquia reside no seu surgimento espontâneo no contexto do início e desenvolvimento contínuo da autonomia-em-cooperação em todas as esferas da actividade humana.ii  
 +
  
 
'''O P2P e a Propriedade Comunitária'''
 
'''O P2P e a Propriedade Comunitária'''
 +
  
  
Line 86: Line 98:
  
 
== O P2P e o Mercado: A Imanência vs. Transcendência do P2P ==
 
== O P2P e o Mercado: A Imanência vs. Transcendência do P2P ==
 +
  
 
'''O P2P e o Mercado'''
 
'''O P2P e o Mercado'''
 +
  
 
As trocas entre pares podem ser consideradas em termos do mercado apenas na medida em que os indivíduos podem contribuir livremente ou obter o que necessitam, seguindo as suas aptidões individuais, existindo uma mão invisível que aproxima todas as partes mas sem a intervenção de qualquer mecanismo monetário. Elas não são verdadeiros mercados em qualquer sentido real: tanto a fixação de preços pelo mercado como o comando empresarial são desnecessários para a tomada de decisões relativas à distribuição dos recursos. Existem ainda diferenças adicionais:
 
As trocas entre pares podem ser consideradas em termos do mercado apenas na medida em que os indivíduos podem contribuir livremente ou obter o que necessitam, seguindo as suas aptidões individuais, existindo uma mão invisível que aproxima todas as partes mas sem a intervenção de qualquer mecanismo monetário. Elas não são verdadeiros mercados em qualquer sentido real: tanto a fixação de preços pelo mercado como o comando empresarial são desnecessários para a tomada de decisões relativas à distribuição dos recursos. Existem ainda diferenças adicionais:
Line 98: Line 112:
 
As desvantagens dos mercados incluem:  
 
As desvantagens dos mercados incluem:  
  
Não dão uma resposta adequada a necessidades comuns que não envolvem pagamento directo (defesa nacional, administração geral, educação e saúde pública). Para além disso, não levam em conta externalidades negativas (o ambiente, custos sociais, gerações vindouras).  
+
  - Não dão uma resposta adequada a necessidades comuns que não envolvem pagamento directo (defesa nacional, administração geral, educação e saúde pública). Para além disso, não levam em conta externalidades negativas (o ambiente, custos sociais, gerações vindouras).  
Dado que os mercados abertos tendem a diminuir o lucro e os salários, eles dão sempre origem a anti-mercados, onde os oligopólios e os monopólios utilizam a sua posição privilegiada de modo a que o estado manipule o mercado em seu benefício.
+
  - Dado que os mercados abertos tendem a diminuir o lucro e os salários, eles dão sempre origem a anti-mercados, onde os oligopólios e os monopólios utilizam a sua posição privilegiada de modo a que o estado manipule o mercado em seu benefício.

Revision as of 22:47, 17 July 2006